sábado, 18 de junho de 2016

Poeira



Escondi-me na poeira dos momentos passados,
Onde da penumbra um raiar de luz me ofuscava,
E onde os meus medos guardados calava,
Num silêncio de gritos tão sussurrados.
Escondi-me na poeira dos momentos passados,
Sombra de um ser em tempos sonhado,
Coração pelos meses e anos esmagado,
Nostalgia efémera dos dias traçados.
Guardei no meu peito vozes sem rosto,
Num cofre fechei o sentimento deposto,
E abri a janela da luz e do ser,
E percebi que o segredo afinal, é viver!

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Je suis ..... quoi?



Je suis Paris, je suis Bruxelas, je suis Turquia, je suis Orlando, je suis…. Quoi de plus?... Je suis….le Monde entier!
Sim, ontem fomos Paris, Bruxelas, Turquia, Orlando… e tantos outros locais onde a aberração do terrorismo teima em pôr termo a vidas indefesas, que apenas querem estar de bem com os seus dias, e celebrar  instantes.
De nada serve sermos os locais onde a barbárie aconteceu, apesar da extrema importância de sermos solidários e mostrarmos essa solidariedade a quem sofre.
A questão prende-se muito mais, a meu ver, com o caos que aqui e ali começa a ganhar forma no mundo. Culpados? Todos. Toda uma sociedade, seja ela de brancos, negros, amarelos ou mestiços. Todos contribuíram de uma forma ou outra para a inversão de valores, para a sobreposição dos índices economicistas, àquilo que fundamenta as sociedades – os cidadãos enquanto tal. E não me refiro a sociedades desenvolvidas ou ultra-desenvolvidas. Refiro-me sim, ao mundo em geral. Enquanto uns ostentam o poder angariado, e do alto dos seus pedestais nem sequer se dão ao trabalho de inclinar a cabeça e ver o que se passa em redor, outros, raiam o limiar da miséria, das condições de vida mais degradantes que um ser humano pode viver ainda no nosso século, e quantas vezes resignados, mas solidários, e em cujo olhar ainda brilha uma réstea de esperança. E é precisamente no meio termo que surgem os maiores problemas, muitas vezes provocados por um sentimento de revolta e de injustiça. Chegar perto dos que estão no topo, é difícil pelas vias normais. Resignar-se e aproximar-se do patamar abaixo, não é o objectivo.  E é neste meio termo, onde cidadãos com alguma formação e informação se movimentam, que surgem os problemas, ora por uma ambição desmedida que não olha a meios para atingir os fins, ora por uma desilusão profunda face às assimetrias locais, continentais e mundiais.
E o grande problema é que as sociedades não estão preparadas para lidar com as situações decorrentes  dessa “décalage”,  onde cidadãos aparentemente “normais”, que habitam ou trabalham ao nosso lado, ou podem até tomar um café na nossa roda de amigos, aparentemente enquadrados na sociedade,  vivem vidas duplas, e em nome de um ideal absolutamente aberrante,  não se coíbem de matar, de provocar sofrimento a dezenas ou centenas de pessoas indefesas e que apenas querem fazer a sua vida.
Cada vez mais estes ataques de pura barbárie são direccionados para quem usufrui da sua liberdade, seja ela de ser ou estar, seja de expressão. Esplanadas, cafés, resorts, aeroportos, casas de espectáculo, bares, discotecas, jornais. Locais onde  nos sentimos bem, onde a intenção é desfrutar de momentos que nos dão prazer, e que apenas quem é livre pode usufuir. O terror é inimigo do prazer, da liberdade, da cultura, por isso pretende espalhar o medo. 
É tempo dos senhores que governam o mundo fazerem uma séria reflexão, e tomarem medidas sérias e eficazes,  pois chegámos a uma situação não prevista por quem, a troco de biliões ou triliões financiou autênticos arsenais de armas de guerra, facilitou negócios petrolíferos, e de alguma forma provocou a “pescadinha de rabo na boca” que nos chegou ao prato sem que a tenhamos pedido.
Enquanto cidadãos, expectantes e em simultâneo potenciais actores de um qualquer episódio que possa acontecer se estivermos no local errado à hora errada, apenas nos resta sermos cada vez melhores pessoas, melhores educadores,   gerirmos melhor as nossas prioridades e aquilo que queremos para e da vida, e tentarmos a todo o custo reinstalar o básico de qualquer ser humano – os valores (que não materiais).
Sim, porque o prato que pedimos, pode ter sido dinde aux marrons, moules frites, kebab, hambúrguer, cozido à portuguesa,  sushi, soja ou tofu,  mas não foi certamente esta “pescadinha" que diariamente nos é servida.
E por isso,  je  suis  auncun endroit, je suis le Monde entier!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Tudo acaba ali ...

Aquela brisa afagava-lhe o rosto que prazenteiramente expunha aos raios de sol que despontavam por entre a teimosia de algumas nuvens.
Era aquele misto de natureza e serenidade que lhe devolvia a energia, o ânimo, a paz e a esperança.
Perdia-se na observação de um horizonte longínquo, como se procurasse no seu limite a resposta ou a luz para muitas das questões que lhe assolavam a mente e a inquietude diária. O recorte da costa, o ondular do mar, as gaivotas que no seu voo  desenhavam as mais diversas imagens, algumas crianças  numa brincadeira feliz a desafiar  o rebentar das ondas.
Sim, tudo era perfeito. Ali. Naquele espaço. Naquele  momento.
Os passos de Ana faziam-se ouvir no deck atrás de si. Conhecia-os como ninguém. Se apressados, eufóricos, numa vontade de tudo querer abraçar, e tudo querer viver, ou se cadenciados, arrastados, tristes,  a acusar o peso “do mundo” sobre si…
Ana, era aquele tipo de amiga/irmã/cúmplice, meio furacão, meio chaise-longue. Para ela os limites eram um desafio diário, ávida de vida, de saber, de conhecer, inconformada por natureza, amiga do seu amigo, com uma capacidade enorme de dar. Parecia ter luz própria e dela emanavam energias que facilmente contagiavam quem estivesse em redor. Por isso o diálogo era fácil e as horas corriam como se não existisse relógio.
Ana caminhava devagar, marcando os passos, como se de um ritmo de balada lenta se tratasse. Ummmm, “alguma coisa não está bem”, pensou. Ana apresentava um semblante carregado, triste, e no alto do seu metro e setenta e cinco, os olhos deixavam ainda transparecer as lágrimas. O desalento era evidente.
“Ana, que se passa?”, perguntou-lhe entre a aflição e a vontade de tudo querer resolver logo ali. Depois de dois eternos minutos de silêncio Ana soluçou, como se quisesse exorcizar naquele preciso momento todo o mau estar que sentia, toda a revolta que a assolava.
Após tentativas de a tranquilizar, e por entre frases desconexas e soltas, percebeu. O melhor mesmo era deixar Ana desabafar, falar, falar tudo o que lhe ia na mente e na alma, dar largas ao seu inconformismo, e escutar.
A brisa estava agora mais fresca, os raios de sol mais ténues, o barulho das crianças era menos intenso, as gaivotas pousavam na areia, e as bebidas pedidas, ali estavam, à espera.
A dor de Ana era imensa. Tinha acabado de receber a notícia da perda de alguém que lhe era muito próximo. De alguém para quem a vida tinha deixado de fazer sentido há muito, mas que nunca deixou de lutar. Por isso o admirava. “Porquê esta sociedade fútil, falsa e disfarçada? Porquê uma competição desmedida e despudorada para atingir lugares ou bens materiais a qualquer preço? Porquê um mundo com tanta gente má, dissimulada, falsa, invejosa, se no final, todos acabamos da mesma forma?” Ana, a quem alguns amigos se referiam nos seus cometários como extremamente inteligente, dona de uma imensa vontade, mas que ao mesmo tempo denotava alguma ingenuidade, lidava muito mal com o desamor e com a falta dos princípios básicos de educação e de cidadania. Utópico o seu mundo? Para alguns talvez.  Outros pensarão que, no entanto, são as Anas deste mundo, inconformadas, lutadoras, quiçá rebeldes, mas ao mesmo tempo doces, que poderão trazer alguma réstea de esperança na mudança.
De repente, por entre trocas de palavras, frases metafísicas, factos reais, e uma enorme derivação de assuntos, como era normal nos seus encontros, olharam para a mesa onde as bebidas permaneciam intactas, e em simultâneo gargalharam. Portugal. Sim, sem que se tivessem apercebido tinham pedido uma vermelha e uma verde, que lhes faziam lembrar o país. Distante. As saudades apertaram. O rostos das suas vidas vieram-lhes à memória. Riram das recordações mais caricatas. Lacrimejaram pelo aperto no peito. E ali, onde a tarde ia já avançada, decidiram: voltar.  Afinal, a perfeição não existe, o mundo ideal é um sonho, e se de sonhos se tratava, então que sonhassem junto dos seus.
Ana,   iria certamente prosseguir com as suas lutas agarrada às suas convicções, e Maria, continuaria no seu registo mais tranquilo, comprometido, mas sempre disponível e atenta.
Afinal, um dia,  tudo acaba ali…

terça-feira, 22 de março de 2016

Mundo Doente ou Doença do Mundo?



Hoje é sem dúvida mais um dia triste para a Humanidade, e especialmente para nós Europeus. Estou ainda em fase de absorção dos  mais recentes acontecimentos, mas vou conseguindo arrumar algumas ideias e ver perspectivas diversas.
Sem dúvida que o terror e o medo espalhado por aqueles que fria e barbaramente se explodem, ou fazem detonar engenhos, sem olhar a quem, em nome de alguém ou de um credo, se encontram completamente alienados e vivem à margem dos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, pelos quais pautamos as nossas vidas e que regem a nossa civilização. Preocupante é sim , a forma,  como estas células vão proliferando, dentro de uma organização de tal forma sofisticada, que escapam a buscas, a intersecções, em manobras demasiado estudadas e rebuscadas. Mais preocupante ainda, a mobilização crescente de jovens que aderem a esta barbárie, e sobre os motivos que os levam a actos completamente tresloucados, deverá existir por parte do Mundo, uma séria reflexão.  Desilusão, desacreditação, desvalorização das regras sociais fundamentais, revolta, utopia, todos estes aspectos potenciam o recrutamento de uma franja social onde os problemas do desemprego agravados pelas crises económicas e sociais, podem ser tão somente a alavanca para um acreditar que poderá existir uma força superior que tudo resolverá, e em seu nome, cegamente se mata, se destrói, se causa o caos. Os sociólogos, muito mais que os politólogos, têm aqui uma matéria enorme para estudar e trabalhar.
Não, que os politólogos não sejam igualmente chamados a opinar, uma vez que é nos bastidores do sujo jogo político e de interesses que são abertas as brechas que permitem que estes movimentos cresçam e se especializem. Afinal, o negócio de armas, o narcotráfico, a comercialização do petróleo, mais não têm constituído do que um submundo em cujas “caves” tudo tem sido negociado e permitido. Até o financiamento dos países ditos evoluídos a estes grupos terroristas tem servido para que estes venham destruír quem os “ajudou” a formar, qual “pescadinha de rabo na boca”… E aqui chegados, aqui d’el rei, que isto agora é mesmo sério e não temos capacidade para dar a volta à situação….
É por demais evidente que o modelo de segurança existente na Europa, quiçá no Mundo, não consegue dar resposta a quem se movimenta na sombra, com o escudo de indivíduo inserido numa sociedade, onde até tem família e pontualmente trabalho, apesar de quem sabe referenciado, por este ou aquele episódio que não se revelou como “alarmante”. Não tenhamos dúvidas que os terroristas vivem junto de nós, percebem muito bem onde se movimentam, estudam minuciosamente os alvos, e cada ataque que fazem é apenas mais um aviso.
A Europa e o Mundo andam num desnorte, a coesão não tem a força que deveria ter, as estratégias são ainda falíveis, e por entre tantas brechas, o cerco vai apertando.
Enquanto cidadã, recuso-me a viver o Medo, a aceitar o Terror, mas não posso deixar de olhar com muita preocupação para o espaço que é de todos e onde tenho criado os meus filhos, a vergar e sucumbir perante a barbaridade. Todos não seremos demais para mostrarmos que o Bem existe, que o Amor enfrenta o Terror, e que é na Vida que encontramos as nossas realizações.  22-03-2016

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O amor ... talvez ainda seja tempo ...



Na semana em que se celebra o amor, inúmeros têm sido os artigos, as entrevistas, as crónicas de opinião,  que diarimente têm vindo ao nosso encontro onde se fala sobre namorados, sobre violência no namoro, e sobre as várias formas de amor. Não obstante considerar bastante preocupante a violência no namoro, testemunhada em depoimentos vários,  e encarada como “normal”, por protagonistas desses mesmos depoimentos,  houve uma vertente do amor que mais me cativou a atenção,  através  três artigos em diferentes publicações a versar o mesmo tema – relação entre filhos e pais.
Se de início fiquei chocada com o desenvolver dos textos e dos depoimentos,  após leitura mais atenta e cuidada, consegui ir dissecando cada uma das passagens e sobre elas reflectir.
Fruto de um aproximar entre gerações, de uma relação mais aberta, e menos autoritária,  a forma de estar dos jovens de hoje é em tudo diferente daquela que os seus pais vivenciaram, numa época em que a austeridade parental era nalguns casos extrema, e em que ninguém ousava sequer desafiar a voz ou o olhar do progenitor. No entanto, nesses anos idos,  o “agradecimento” e o “reconhecimento” pela existência, pela vida, e por tudo aquilo que ela poderia proporcionar, era um lugar comum em todos os lares. Os filhos reconheciam o “milagre da vida”, e numa sociedade que lutava com inúmeras limitações materiais, culturais, educacionais e outras, a Vontade de crescer, lutar, conhecer, desbravar, vencer, impunha-se e transformou essas  gerações num capital de desenvolvimento e conhecimento do país e da sociedade .
Chegados aos dias de hoje, muito pela meteórica transformação da sociedade, pela “fartura” de meios ao dispor, pelas constantes e diversificadas solicitações sociais,  por uma inversão na escala de valores,  muitos são aqueles que denotam uma manifesta incapacidade relacional, que se traduz em frustrações que não raro conduzem à violência, não apenas física, mas essencialmente psicológica, para com os pais.
Li, e na opinião de sociólogos e psicólogos reputados,  a rápida transformação da sociedade, as dificuldades trazidas por crises de vária ordem (económica, social, de valores, por ex.),  instaladas num caminho que se queria facilitado e talhado para o sucesso,  vieram pôr em causa regras, conceitos, e a própria sociedade. Perdidas neste emaranhado, as  gerações mais jovens, desiludidas, desconfortáveis com o futuro anunciado, mas em simultâneo com uma manifesta falta de Querer e de Vontade, direccionam a sua frustração e revolta, para os pais.  É frequente, segundo os profissionais que se debruçam sobre esta temática, a frase:”não pedi para nascer, portanto, já que cá estou, aguenta!”. 
É chocante e por demais preocupante. Se antes os pais se congratulavam pelo “milagre da vida”, agora, querem os filhos fazê-los sentir culpados por eles terem nascido???  Filhos que não são fruto de um qualquer jogo de consola, mas sim de uma relação, de uma cumplicidade amorosa… Filhos, a quem os pais se dedicam com um amor incondicional e a quem colocam acima de tudo na vida, quantas vezes com sacrifícios vários e incomensuráveis, mas sempre com aquele “savoir-faire” de quem está de bem com a vida.
E sim, neste mês do amor, faça-se uma reflexão sobre o seu verdadeiro valor, sobre o que está a acontecer com os mais jovens, e não se dê de barato o amor como consumo,  como desculpa para actos fúteis,  como representação material de um mau estar espiritual, ou como culpa pela falha de uma enorme e potente máquina social.
Se existir ainda a capacidade e o espaço para dialogar, para inverter valores subvalorizados,  para fazer renascer a Vontade e o Querer,  poderemos ir ainda a tempo de travar algumas formas de violência quer com os pares, quer com os pais. Compete à sociedade em geral e a cada um em particular, operando nos seus lugares específicos, reverter a tendência de degradação e desrespeito evidenciadas nas várias publicações dos últimos dias.