segunda-feira, 18 de julho de 2016

GPS



Chega, liga, segue a rota.
Anda, corre, salta e pula.
Aqui avança, ali pára.
Vota atrás e recalcula.
Retoma o caminho perdido,
Aumenta a velocidade,
E o GPS avisa:
Parar de novo – necessidade!
Trava, encosta outra vez,
Que chatice de viagem,
O caminho não tem fim,
Chega a ser uma miragem.
E sempre a recalcular,
Vai de etapa em etapa,
Ora bolas , que desgosto,
Não ter nascido com mapa!
GPS fala e cala,
Já chega de: “atenção”!!
Desliga e volta a ligar…
Na mesma -  em contramão!!
Irra, que coisa macaca,
Esta do caminho a traçar,
Cala a boca maquineta!
Que o destino há-de chegar!
Nas voltas do recalcula,
Algo sempre a descobrir,
Parar não é solução,
O melhor mesmo, é prosseguir!
E de GPS na mão,
Arrisca o que melhor parecia,
Sim, porque a caixinha pifou,
Faltou-lhe a bateria.
Viajar assim é penoso,
Experiência que não se esquece…
Haja luz e convicção,
Nem faz falta o GPS!!!

domingo, 17 de julho de 2016

A Vida em Magia



Só podia ser magia. Sim, magia. Porquê?
O crepúsculo, a brisa, a paz, a música num tom rouco, calmo e cúmplice,  aquela bebida tão especial, mimo de certos momentos,  tudo  fazia parte do cenário.   A paisagem, essa, de uma beleza incrível. Luzes  que povoavam o espaço  frente ao terraço deixavam observar o declive que se estendia a seus pés,  para mais logo confinar num horizonte infinito, onde a imaginação se perdia.
A conversa fluía, agradável, ora em temas mais sérios, ora recortada por momentos hilariantes de boa gargalhada.  Eram assim os encontros deste grupo de amigos, distantes no espaço, mas em tudo cúmplices, como se diariamente se cruzassem.  As histórias, as aventuras, as desventuras, tudo lhes era comum e familiar.  Amigos, sim. Mesmo. Daqueles que cantam, riem e sofrem connosco. Daqueles que basta uma entoação diferente na voz ou uma pausa mais prolongada, para percebermos que alguma coisa se passa. Daqueles que não se coíbem de telefonar fora de horas para connosco partilharem uma alegria ou uma tristeza.  Daqueles que, fisicamente distantes, no momento certo, estão presentes. Bom. Muito bom mesmo, que ao fim de tantos anos, com vidas e percursos diferentes,  nada tivesse mudado nem beliscado aquela cumplicidade. Mantinha-se intacto este núcleo duro.
À medida que a noite ficava cada vez mais cerrada, mais deslumbrante a paisagem. Os reflexos das luzes, onde um luar intenso parecia querer construír diferentes imagens,  o piscar dos aviões a cruzar o céu,  o cintilar das estrelas. No terraço, a luz difusa das velas e das tochas, tornavam aquele serão mágico.  Um cheiro meio campestre,  onde o pinho se misturava com a fragância libertada por plantas diversas, entranhava-se  na pele e nos sentidos.
Curioso, como são estes momentos que ajudam a dar sentido à vida; quando começamos a vergar pela pressão dos dias,  quando  parece que a solução para certos problemas está cada vez mais longe, quando a desilusão se apodera de nós, quando deixamos de acreditar nas pessoas, é esta espécie de vitamina que ajuda a alimentar os dias mais difíceis. Vitamina mágica.  Sim, mágica, porque não é componente de medicamento algum, nem tão pouco de suplemento alimentar. Mágica, porque é absorvida por aquilo que de mais abstracto existe em nós: o sentimento e a alma. Intangível e invisível. Apenas  intrínseco a cada pessoa.
 Como é difícil, por vezes, fazer perceber aos outros que a essência da vida afinal é tão simples …  simples, como a amizade, o amor, a luz, o cheiro, o estar e uma dose de magia q.b.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Portugal, os “inhos” e a Alma



Lugar comum desde a noite de 10 de Julho, a grandeza de Portugal e dos Portugueses.
Por isso, a minha reflexão vai não no sentido da pura celebração de um feito de que todos nos orgulhamos, mas  num sentimento mais abrangente  da Alma lusa que nos habita.
Foi com emoção, comoção, um arrepio gélido e uma teimosa lágrima ao canto do olho, que assisti, ainda que à distância, à celebração de uma Nação e de um Povo, materializados na vitória de Portugal no Euro 2016.
Sofremos, gritámos, protestámos, mas não deixámos de Acreditar!
No final de um dia  marcante para o País, onde o atletismo também foi rei,  terminámos e serão com a alma cheia de Portugal!
É impressionante o poder de união e de vontade gerado em torno de um feito que num segundo quebrou preconceitos, resistências, e mostrou ao mundo que se calhar era tempo de mudar o rumo – um simples golo, marcado pelo mais improvável dos 23 convocados. A prova, de que afinal é possível.
Os Portugueses uniram-se, abraçaram-se, cantaram a uma só voz, emocionaram-se em conjunto, e em conjunto pintaram o País a duas cores, felizes, humildes, mas com o sentimento da sua enorme grandeza!
Afinal, quando tudo conspirava em sentido contrário, aqueles rapazes reinventaram-se, e com a garra comum a este nobre povo, tiveram a capacidade de com humildade, inteligência e espírito uno, devolver aos Portugueses alguma da alegria há tempos “roubada”.
Somos Grandes!! Sim, somos Enormes, tão enormes quão enorme é a Alma que nos habita! E não vale a pena quererem fazer de nós os “inhos” de uma Europa caduca de conceitos  e valores. Nós não somos os coitadinhos que habitam aquele país na pontinha da Europa,  muito bonitinho e hospitaleiro, mas onde tudo é “pequenino”... Nós não somos a imagem que quiseram fazer passar de nós, probrezinhos, sem capacidade para enfrentar as dificuldades e agruras de tempos tempestuosos. Nós não somos um bando de vadiozinhos, gastadores e irresponsáveis, sentados à sombra da bananeira à espera que aconteça.  Nós não somos os vaidosinhos tugas, a darem-se ar de gente importante! NÃO!!
Os Portugueses  têm uma enorme capacidade de se reinventar, de acreditar, de fazer, de empreender, de amar, e de em conjunto se unirem num abraço de humildade, que faz vergar os mais arrogantes e intolerantes.  
Sem dúvida que entrámos numa nova era, não só pela força do futebol que tem o poder de agregar crenças e vontades, mas também pelas demais modalidades desportivas que nos aportam tanto orgulho; pela cultura cada vez mais reconhecida além fronteiras, pela voz, pela caneta, pela tela, ou pela mão de tantos talentos que nos levam aos sete cantos do mundo; pelos jovens empresários que amadurecidos numa época de dificuldades, abriram o espírito às alternativas de investimento; pelo crescente número de cientistas e investigadores que diariamente contribuem para descobertas determinantes nas mais diversas áreas; pelo trabalho de milhares de jovens qualificados que, espalhados pelo mundo, desenvolvem o seu trabalho com  dedicação e afinco  reconhecidos;  enfim, pelas oportunidades que tivemos a capacidade de triar, de agarrar, de empreender, e de virando o tampo da mesa, e o já gasto tabuleiro do jogo,  conseguimos recolocar.
E já que os Portugueses são Enormes,  tempo seria também de entrarmos numa nova era em termos de postura política, deontológica, ética e moral, por parte daqueles que governam os nossos destinos, ou que com eles interferem directa ou indirectamente.  Existe uma Alma que sofre, pela incúria, pela arrogância, pela ganância, pela frieza desmedida dos números, e que não merece mais provações socio-económicas, familiares e afectivas.  Esta Alma é a essência de Portugal, é a identidade que queremos ter intra e além-fronteiras. Esta Alma canta, ri, vibra, chora, sofre, trabalha, abraça, beija e ama. Esta Alma quer-se una, envolta num manto de afecto, e onde percorrida por um longo abraço, permita que lhe seja devolvido o beijo, espelhado no chão que tanto ama.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Penumbra de um Sonho



Vi-te passar na penumbra. A luz, era fraca e trémula, e a dificuldade para distinguir os rostos acrescida. Semi-cerrava os olhos ardentes, para tentar diminuir o espaço em volta, e fixar os traços da feição,  que afinal me eram tão familiares.
Passo apressado, quase fugidio, diria,  como que a correr atrás de um qualquer objecto que resvalasse rua abaixo, na ânsia de o apanhares.
Pensei: correr… para quê? De quê? A nossa existência é de facto uma caixinha de surpresas, mas apenas funciona  se nos quisermos deixar surpreender, coisa que afastaste de ti há anos…. O querer que algo ou alguém  te surpreenda. Sim, as surpresas, sejam elas quais  forem, fazem-nos sentir que a vida existe. Ora nos desafiam,  ora nos amarguram, ora nos deixam em êxtase.  Mas, recuperando, o tema,  não compreendo do que corres. Se de ti, se da vida.  Tudo é uma imperfeição – eu sei. As pessoas não são perfeitas, as escolas não são perfeitas, os empregos não são perfeitos, e os relacionamentos também não. Sessenta por cento de nós e do que nos rodeia é imperfeito. E então? Desistimos? Fugimos? Não, certamente. Temos em nós a chave para abrir e fechar as gavetas que queremos nas nossas vidas. No entanto, a chave tem que permanecer connosco e não devemos jogá-la fora,  pois uma gaveta por abrir pode conter dentro de si uma enormidade de oportunidades, e uma gaveta semi-fechada, se não for trancada de vez, deixa evaporar a poeira que nos incomoda, causando uma espécie de brotoeja, que quanto mais se coça, mais fere a pele.
Não corras! Dá espaço para que os teus passos tenham o compasso dos dias e das noites, dos meses, e das estações do ano. Esse, sim, é um ritmo saudável. Sem jet-lags permanentes que te privam da paz e da tranquilidade daquilo que é ser ou estar. Olha em volta: a vida dita “normal” já nos força a correr sem que o tenhamos pedido. Correr de correr, é um esforço tal, que arrasa físico e mente, e que não te acrescenta.
Vi-te passar na penumbra. Uma, duas, tantas vezes…. Que a penumbra passou a ser aquele aliado, onde tentamos ver o invisível, onde a tua sombra se move, e onde procuro aquelas respostas tão distantes quanto difíceis de entender.
O mundo gira, sim, sempre. Não pára. E é contra-natura que alguém o queira fazer parar… só porque sim. O mundo… o mundo, és tu, sou eu, são todos aqueles que nos acrescentam, mas também aqueles que deixaram de fazer sentido,  e que no entanto existem.  O mundo são aqueles que “partiram”, que nos preencheram, e que recordamos de alma cheia, mas também são muitos outros que por nós apenas passaram. E o mundo está aí – doente, desumano, frio …., mas é neste que ocupamos o nosso espaço. É este que é necessário mudar. Não Marte, Saturno ou Plutão.  E é aqui que tens o teu lugar, e a tua oportunidade de fazer! Não de correr…. É aqui que podes falar, transformar, empreender! Não, correr…. É aqui que cimentas raízes, que cresces e floresces! Não, correr delas ….
Vi-te passar na penumbra, e os meus olhos semi-cerrados ardiam-me. Ardiam-me de ver as tuas recusas,  a negação a que te entregaste, o tempo que renegaste, o ser que de ti afastaste,  o sorriso que já esqueceste,  o ombro onde adormeceste.
E da penumbra acordei, tensa, transpirada, ofegante….. afinal era manhã,  e o sonho dilacerante.



sábado, 18 de junho de 2016

Poeira



Escondi-me na poeira dos momentos passados,
Onde da penumbra um raiar de luz me ofuscava,
E onde os meus medos guardados calava,
Num silêncio de gritos tão sussurrados.
Escondi-me na poeira dos momentos passados,
Sombra de um ser em tempos sonhado,
Coração pelos meses e anos esmagado,
Nostalgia efémera dos dias traçados.
Guardei no meu peito vozes sem rosto,
Num cofre fechei o sentimento deposto,
E abri a janela da luz e do ser,
E percebi que o segredo afinal, é viver!